A Viagem

Richard Hooker: Balls Pond Road, Canonbury

Richard Hooker: Balls Pond Road, Canonbury

Não sabia mais o que esperar. Ainda faltavam aqueles minutos pontuais para o ônibus cruzar meu caminho. As pessoas na paragem se debruçavam pelo relógio, esperando que um suspiro, um murmúrio movesse mais rápido o ponteiro dos segundos. Eu examinava tudo ao centro dos temores, sentado debaixo da cobertura. O trânsito de sentimentos era intenso.

Mas então algo mudou o sentido de tudo, inverteu a mão pelos pés. Ela subiu primeiro, com aqueles livros colegiais envoltos por uma pele cheirosa, um frescor novo que contornava os dedos – e eu sentia dali estremecer meu gênio. Foi lindo como ela passou com o passo apertado por mim e, me levou com ela a uma viagem que não sabia no que poderia desenrolar. Aquele não era mesmo o meu ônibus.

Ultrapassei a lógica com a mesma ferocidade que a catraca. Ela se sentou virada à janela, assistindo um filme ao qual, provavelmente, estivesse acostumada e cansada de rever. Para mim aquilo era tudo muito novo. Ajeitei-me numa poltrona à frente com os olhos cheios de água e não pude deixar de me lembrar de todas as vezes que me perdi por aí. Fui e voltei com algumas namoradas, com algumas deixei muito de mim, com outras perdi muito pelo caminho. Mas, sensivelmente, a vida não se repetia.

E, com um novo itinerário, a viagem prosseguia, até o momento que uma mão pousou suavemente sobre meu peito, com se amortecesse ali mesmo o poder de um conselho. Não era. Uma senhora queria se sentar. Eu me levantei comprometido com a verdade, com o troco da passagem tilintando com a minha alma no bolso. Se eu pudesse mesmo apertar um botão, puxar uma cordinha entre as minhas cordas vocais que pudesse dizer àquela moça como eu me sentia, se eu só pudesse.

Não conseguia. Ela teria que se apaixonar por mim no tranco, numa velocidade absurda e parar diante na minha frente e dizer com compromisso todas as palavras que eu queria ouvir. Simples assim. Era o mais fácil a se pensar. Eu estava sem destino, perdido entre placas que não cantavam nada, nenhum nome ou programa de televisão favorito. Movíamos sem nos mexer dentro do ônibus, levados por destinos diferentes. E nada, completamente nada nessa viagem me levava a ela.

Chegamos à parada final. Ela teria que descer, eu ia ter que dizer algo sem volta. Mas nada disso aconteceu. Eu fiquei imóvel. Ela foi embora, vi seu desconhecimento cruzar a faixa de pedestres para longe da minha vontade. Eu dividia com o silêncio as cadeiras vazias dentro de mim e, não pude deixar de perceber, sei lá, que cada um deve separar a si mesmo um destino. E eu me sentia em casa ali dentro do ônibus. Eu sempre estive aqui pela viagem, eu sempre quis que me levassem pra além de mim. Finalmente eu tinha conseguido.

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