A gente nunca esquece

Eu me lembro da primeira vez em que eu peguei ônibus sozinho. Eu tinha 13 anos e estava em um colégio novo. Para esse colégio, eu ia e voltava de perua – a van da escola. Mas, aos sábados, não tinha perua e eu tinha atividade extracurricular.

No primeiro dia de aula aos sábados, meu pai me levou de carro. Depois, ele voltou para casa e foi novamente para a escola, dessa vez de ônibus. Ele ficou me esperando para, então, voltarmos juntos de ônibus.

No caminho até o ponto, ele foi me explicando tudo. Muito preocupado, me avisou sobre todo e qualquer detalhe, me alertando sobre o que eu deveria prestar atenção e como não me perder até chegar ao ponto de ônibus.

Dentro do ônibus, ele foi me ajudando a memorizar pontos de referência para eu saber a hora certa de dar o sinal. Além de ficar me contando suas memórias de infância por onde passávamos.

Bom, no final de semana seguinte, o processo se repetiu. Meu pai me levou de carro, voltou para casa, voltou à escola de ônibus e me aguardou para irmos juntos para casa. Só que, dessa vez, fomos a um ponto diferente, pegamos um ônibus diferente e descemos num ponto diferente. Meu pai queria me ensinar com segurança as duas opções. Não me poupando nenhum detalhe.

Finalmente, no terceiro sábado, meu pai me levou até a escola, voltou para casa e por lá ficou, me aguardando. Ele ainda não queria que eu fosse sozinho, voltar por enquanto era o suficiente.

Bom, após a aula eu decidi que pegaria o ônibus da primeira opção. Eu estava nervoso. Fui andando e tentando me lembrar de absolutamente tudo que meu pai tinha falado, até chegar ao ponto e ficar extremamente ansioso esperando o ônibus chegar.

Já no ônibus, eu me senti mais gente grande e independente do que nunca. Eu sorria. Eu queria conversar com alguém. Esperando que alguém perguntasse: “Ora, você está sozinho, criança?”. Para eu responder: “Estou, sim! Já sou grande o suficiente.”.

Cheguei em casa e me sentia orgulhoso e empolgado. Queria ir para a cidade inteira de ônibus. Sozinho. Só eu em uma aventura.

Essa sensação permaneceu nas várias vezes seguintes em que eu peguei ônibus sozinho. Até que anos depois eu percebi que pegar ônibus já fazia parte da minha rotina, que já era uma coisa normal. E, por incrível que pareça, me empolguei de novo. Eu me sentia mais adulto ainda, em que fazia parte da minha rotina circular livremente pela cidade.

Hoje em dia, continuo amando poder explorar a cidade sozinho. Mas não deixo de apreciar uma boa companhia. Principalmente se for de alguém especial como meu pai.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s